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O FILME Um dos ciclos mais importantes do cinema brasileiro, pelo impacto que causa até hoje, foi o do chamado "cinema novo". Seu propósito era o de pensar o Brasil e, para isso, um amplo espectro de temas foi abordado, sendo um deles o do filme urbano, que, em uma de suas vertentes, exibia, de forma explícita ou metafórica, um retrato social da classe média (incluindo aí os seus intelectuais), sua imensa força de trabalho, suas esperanças e seus projetos, com os erros, decepções, medos e misérias existenciais daí decorrentes. Mas, apesar de tudo, era possível ver a sua determinação de trabalhar e produzir, de seguir em frente lutando, assim como a personagem Anna em ADAGIO SOSTENUTO. Tendo isto em mente, o compromisso do filme é mostrar a experiência humana como parte de um processo social, situando e construindo sua estrutura narrativa e seus personagens através de uma perspectiva histórica, abordando uma classe média agora submersa no caos, violência, desagregação e desorientação, o que vincula o Brasil atual à conjuntura mundial recente, também submersa no caos e na violência descontrolada. Para tanto, o projeto compõe um painel onde se misturam o drama particular de uma mulher, diretora de cinema, que teve o marido, roteirista e historiador, assassinado num sinal de trânsito e o drama de uma sociedade sitiada pela brutalidade, enquanto está sendo produzido um filme que fala do descaso com a velhice, através de dois velhos professores de história aposentados na iminência da morte, simbolizando a história do século XX. Para que as diversas camadas dramáticas simultâneas desse painel possam ser potencializadas, a narrativa (em imagem e som) incorpora as artes que antecederam o cinema e das quais ele herdou os conceitos de luz, enquadramento, som e estrutura, ou seja, o teatro, a literatura, a pintura, a música e a ópera, assim como os recursos pertencentes à linguagem documental, auxiliando a ancorar os elementos de composição da história de ficção que formam o leito através do qual a ação flui. Este leito narrativo, que justapõe dialeticamente imagem e som em diversos níveis e significações progressivos, permite que certas imagens e sons possam se desenvolver tendo mais de uma camada de leitura, desvelando os meios da criação artística e da análise social simultaneamente, propondo ao espectador que olhe para trás para poder olhar para frente, e, portanto, observe as formas e conteúdos de um processo individual em um processo coletivo, coligando fatos e agentes neles envolvidos. Ao mesmo tempo em que emprega, esteticamente, recursos modernos, o filme lança mão de formas oriundas do cinema mudo e que foram sistematicamente abandonadas desde a introdução do som, resgatando com isso a possibilidade de fazer com que a narrativa se desenrole através de elementos concretos que se tornam representações simbólicas e vice-versa, enquanto os estados da alma dos personagens são desenvolvidos paralelamente. O filme "Limite", de Mário Peixoto, é um dos exemplos máximos dessa corrente já bastante esquecida, trocada por um viés naturalista, que tem a pretensão de dizer que o que estamos vendo é a realidade, enquanto toda a trajetória da Arte prova o contrário, e que a realidade individual é causa e conseqüência da social, e como tal deve ser analisada e interpretada. Um filme não pode ser nem é a solução de problemas históricos seculares. Mas sim a interpretação de uma fatia da História. No início deste texto, falou-se em como o "cinema novo" olhou para a classe média e a trouxe para as telas, disponibilizando para o nosso público o retrato da classe média dos anos 50, 60 e 70. Hoje, a classe média e seus intelectuais querem se ver novamente representados nas telas. Ambos formam uma força vital na reconstrução do país e são responsáveis por uma gigantesca parcela econômica e financeira de sua riqueza, através da geração de empregos e produção de bens de consumo, onde se incluem os produtos culturais, representação artística de um povo, o registro de como vivemos, permitindo que gerações futuras possam estudar e avaliar o começo do século XXI. ADAGIO SOSTENUTO está em consonância com a idéia de trazer para um primeiro plano este segmento. Sua importância no panorama atual do cinema brasileiro não se traduz somente na estrutura narrativa diferenciada e na variedade de temas abordados, mas também no modo como são abordados, colocando em evidência o ser humano e sua luta contra todas as formas de esquecimento, tanto do próprio ser humano quanto do mundo do qual ele faz parte, representando, deste modo, a persistência da memória. Individual e coletiva. E a sobrevivência através da memória. Ao analisar os conflitos e limites entre violência urbana e trabalho criativo, civilização e natureza, guerra e paz, morte e vida, utilizando uma estética narrativa em que se misturam literatura, música, pintura, teatro, ópera, ficção e documentário, este projeto tem a intenção de criar uma obra que reflita, de maneira mais completa, as transformações que expressam as forças do seu tempo e seus interesses sociais. * * * © Pompeu Aguiar/Paulo Coriolano |
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